Acho que já comentei aqui que acho fascinante a forma como as coisas surgem, se propagam e desaparecem no mundo online, sobretudo em redes sociais (parênteses: costumamos falar da internet como se fosse um lugar só, um círculo só, um grande caldeirão onde todos pegam a colher, dão uma mexidinha, uma bicadinha, mas existem mundos tão diversos e círculos tão variados - então aí fico pensando que se eu construo uma rede de contatos em que as pessoas têm interesses parecidos com os meus, então é óbvio que as coisas que vejo se repitam muito pelos murais das pessoas que sigo. Como já discutimos em uma lista da qual participo, difícil é fazer a voz chegar mais longe, ser ouvida por quem está fora da nossa caixinha).
(foto de Livia Cuesta)
A imagem que rodou bastante hoje pelos lugares onde "ando" (clico?) foi tirada em uma livraria num shopping carioca. É simples, é singela - todo mundo se sensibilizou com a figura do homem folheando um livro diretamente da estante de uma livraria. Não dá pra ver qual obra é, mas dá pra ver que aparentemente não é o tipo de pessoa que estamos acostumados a encontrar nas nossas visitas às livrarias - das mais chiques e careiras e grandes e sortidas aos estabelecimentos pequenos, acanhados, escondidos. Digo aparentemente porque trata-se disso, da aparência dos frequentadores das livrarias - pode ser que o sujeito seja mesmo "do tipo" que lê, e nesse caso é mesmo mais um que a gente vê pelas estantes, só que não nos mesmos trajes. Não do mesmo jeito.
Não se sabe o que ele está folheando, não dá pra tentar adivinhar o que pode tê-lo atraído, já me perguntei como se comportaram os funcionários da livraria e mesmo os outros clientes frente a uma cena sui generis (compartilhamentos no Facebook dão conta de que os funcionários não tentaram retirar o homem da loja. O que é duplamente formidável, porque se a loja está dentro de um shopping center significa que a ele foi permitido circular por lá. O que também é surpreendente: visite o Templo de Consumo próximo à minha casa na noite de sexta e sinta a tensão dos seguranças andando atrás dos "manos" que fazem do lugar seu point do dia). Mas a imagem forte remete à ideia de que ainda não somos um grande país de leitores (desculpa aí, MEC, desculpa aí Biblioteca Nacional, mas vamos seguindo em frente). Iniciativas de democratização da leitura ainda caminham devagar, esparramadas por todo o território nacional, e definitivamente o preço dos livros não faz parte dessa, digamos, luta. Quando a leitura for passatempo nacional não vai haver mais o triste contraste entre o leitor esperado e o leitor presente.
Por trás da tela...
...continuo a fazer barulhinhos no teclado.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Sons e imagens de mãos dadas
"Fechem os olhos", dizia a professora um instante antes de colocar a agulha sobre o disco. "Ouçam cada acorde da música e pensem num rio correndo, crescendo, se tornando mais caudaloso, mais barulhento, dando volteios, fazendo curvas...". E eu gostava da experiência de deixar que a música construísse imagens na minha cabeça - já que era obrigatório que tivéssemos aulas de anatomia, música, ballets de repertório, dança moderna, prática de ensino, então que fosse prazeroso pelo menos passar uma hora por semana na escola de dança ouvindo música. E na minha cabeça o rio Moldávia corria, seguia seu curso por cidades e campos.
Trilhas sonoras têm a virtude de unir imagens em movimento e música, duas das expressões artísticas mais preciosas e mais estimulantes, mais marcantes também. A trilha não só completa as cenas, cria climas, mas é ela mesma parte da história que está contada; as imagens que são eternizadas na tela devem ser evocadas pelos sons e ao mesmo tempo não podem prescindir deles. O filme é revivido pela música, as lágrimas chegam da mesma forma só pela lembrança do que está associado àquela melodia, as sensações se repetem. No meu caso a saudade daquele encontro com aquela história é instantânea.
Assisti "O Piano" no começo de 1994, em meio a provas de vestibular em Porto Alegre. A história turbulenta de Ada, moça inglesa despachada a contragosto com sua filha para se casar na Nova Zelândia no século XIX me tocou pela agonia da mulher sem horizontes, sem qualquer nesga de sol, com tão poucas opções e vislumbrando tão poucas chances de modificar sua condição; me emocionei ao enxergar o mundo que ela descobre e ao compreender o que seu piano representava em sua vida: não necessariamente um passado melhor, mas a sobrevivência de beleza em meio à aridez, à contrariedade, às impossibilidades, e o surgimento de caminhos à frente.
Então feche os olhos. E visualize a praia distante, cinzenta, selvagem, rodeada por trilhas enlameadas, e veja-a com os olhos de Ada, avistando a imensidão da amurada de um navio, ressabiada e incomodada, sendo recebida e depois retirada de um bote por mãos estranhas - sim, passivamente, incrédula e contrariada vendo seu piano permanecer na areia em meio à maré que avança. Ela segue pelo meio do mato em meio a pessoas cuja aparência lhe é completamente estranha, cuja língua desconhece, e vê do alto a praia se estendendo, aberta, as ondas que chegam mais perto e seu piano estático, mudo, desprotegido.
Mantenha os olhos fechados e se envolva no dia-a-dia de Ada, ansiando em poder tocar novamente as teclas de seu piano e em poder tocar de novo sua própria vida, seus próprios desejos.
Música não é só um ajuntamento de sons: é evocação.
-----
PS: A trilha sonora do filme é de Michael Nyman e deve estar no meu top 10 ou mesmo top 5 de música para filme; a direção do filme é de Jane Campion.
Trilhas sonoras têm a virtude de unir imagens em movimento e música, duas das expressões artísticas mais preciosas e mais estimulantes, mais marcantes também. A trilha não só completa as cenas, cria climas, mas é ela mesma parte da história que está contada; as imagens que são eternizadas na tela devem ser evocadas pelos sons e ao mesmo tempo não podem prescindir deles. O filme é revivido pela música, as lágrimas chegam da mesma forma só pela lembrança do que está associado àquela melodia, as sensações se repetem. No meu caso a saudade daquele encontro com aquela história é instantânea.
Assisti "O Piano" no começo de 1994, em meio a provas de vestibular em Porto Alegre. A história turbulenta de Ada, moça inglesa despachada a contragosto com sua filha para se casar na Nova Zelândia no século XIX me tocou pela agonia da mulher sem horizontes, sem qualquer nesga de sol, com tão poucas opções e vislumbrando tão poucas chances de modificar sua condição; me emocionei ao enxergar o mundo que ela descobre e ao compreender o que seu piano representava em sua vida: não necessariamente um passado melhor, mas a sobrevivência de beleza em meio à aridez, à contrariedade, às impossibilidades, e o surgimento de caminhos à frente.
Então feche os olhos. E visualize a praia distante, cinzenta, selvagem, rodeada por trilhas enlameadas, e veja-a com os olhos de Ada, avistando a imensidão da amurada de um navio, ressabiada e incomodada, sendo recebida e depois retirada de um bote por mãos estranhas - sim, passivamente, incrédula e contrariada vendo seu piano permanecer na areia em meio à maré que avança. Ela segue pelo meio do mato em meio a pessoas cuja aparência lhe é completamente estranha, cuja língua desconhece, e vê do alto a praia se estendendo, aberta, as ondas que chegam mais perto e seu piano estático, mudo, desprotegido.
Mantenha os olhos fechados e se envolva no dia-a-dia de Ada, ansiando em poder tocar novamente as teclas de seu piano e em poder tocar de novo sua própria vida, seus próprios desejos.
Música não é só um ajuntamento de sons: é evocação.
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PS: A trilha sonora do filme é de Michael Nyman e deve estar no meu top 10 ou mesmo top 5 de música para filme; a direção do filme é de Jane Campion.
sábado, 26 de maio de 2012
A vida em preto-e-branco
Chimamanda Adichie é uma escritoria nigeriana que fala, em sua palestra no TED, sobre como é perigoso adotar uma história única sobre alguém, uma situação ou um grupo de pessoas, e considerá-la como ponto de vista definitivo.
Filha de uma família de classe média, aprendeu ainda menina que a ênfase na pobreza de uma família conhecida tirava o foco de sua história de vida, de sua luta, de suas qualidades, porque reforçar que "são pessoas muito muito pobres" deu a ela uma perspectiva única e injusta, de que nada mais existia no mundo daquelas pessoas, pobres coitados passivos esperando que fossem salvos por outros.
Mais tarde, estudando nos Estados Unidos, a posição se inverteu e ela se viu como foco de uma história única, que associava a África a estereótipos como a miséria, a beleza natural, a dependência, a inexistência de uma variedade de culturas.
Fiquei pensando que um dos muitos problemas da adoção desse tipo de visão unívoca é que ele traz embutido, obviamente, um ponto de vista específico que se baseia na ideia de que existe uma verdade apenas, um critério de "normalidade" e que o que foge daquele espectro fica automaticamente classificado não só como "diferente", "alternativo", mas anormal. Nada mais injusto. Não se trata de relativizar tudo, pessoas, atitudes, situações, mas de refletir a respeito do fato de que sim, há histórias múltiplas que correm paralelamente porque nem todos enxergam tudo da mesma maneira. A famosa fábula dos cegos e do elefante.
A mim parece mais anormal a pessoa plana demais, sem profundidade; por trás da impressão de transparência ou de "normalidade" e "naturalidade" pode haver muito mais do que se imagina, e isso não sobressai porque, oras, existe uma cobrança para que se atenda a expectativas, para que o indivíduo se situe em um patamar onde estão reunidos os outros que são...normais: gente sem conflitos, sem dúvidas, que não transgride, não admite riscos, que não marcha fora da fila.
Chimamanda não era uma estudante "normal" no seu campus: era uma africana, era exótica, e foi criticada por um professor que achava que em seus escritos faltava algo que seria um tom de "africanidade", seja lá o que esse homem queria dizer com isso. De posse dos critérios avalizados pela história única que conhecia, o professor buscava encontrar nela traços do que esperava que fosse normal para alguém de sua condição.
Da mesma forma nós, tendo em mãos histórias únicas e muitas vezes incompletas, tentamos interpretar o mundo, as pessoas, colocando no outro prato da balança nossos próprios valores, o que nos parece "normal". Perdemos um tempo precioso que podia ser usado para conhecer o que enxergamos como distante e errado, mas que é nada a não ser diverso, tornamo-nos mais planos, mais rasos, e nosso mundo fica menos colorido, menos cheio de nuances. A vida vira cinema mudo, preto-e-branco.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Por acaso...
Quando alguém me repassou a notícia e corri os olhos pelas linhas tentei primeiro imaginar quanto tempo ia levar até que todo mundo só falasse na bactéria, a infecção, o contágio, os perigos, os horrores: quantos dias levariam até que mais casos aparecessem e que o assunto virasse campeão em portais e redes sociais. Pensei também como teria sido se houvesse twitter e facebook nos tempos do Ebola - naquela época tudo o que tivemos à nossa disposição foi a imprensa escrita, os noticiários de televisão, as matérias do Fantástico, sempre bastante catastróficas.
Depois de não chegar a qualquer conclusão, claro, a imagem terrível da moça perdendo pés no que pode ser uma infecção progressiva me lembrou automaticamente de Ida MacLaird, a garota com os pés de vidro: um dia ela olha para seus dedos e percebe que estão ficando duros, translúcidos, cristalinos, e o vidro começa a lhe tomar o corpo enquanto ela tenta encontrar respostas para seu problema e para sua vida. As soluções podem estar na ilha de St. Hauda's Land (leia aqui texto bem legal escrito por Ali Shaw, o autor do livro, sobre a criação da ilha), gelada, chuvosa, isolada, cheia de pessoas levando vidas solitárias, tristes e igualmente sem respostas.
Sempre prometi ao Nerdrops e a mim mesma uma resenha do livro, que li com rapidez entre o Natal e a virada de ano de 2010. Nunca pude cumprir a promessa porque não me sentia confortável com o fato de que não consegui pensar no que significaria, afinal, o vidro que toma conta do corpo de Ida (fantástico personagem feminino, aliás). Tenho algumas hipóteses e quando reler o livro talvez me decida por uma ou duas. Ou por nenhuma mesmo. Pode ser que eu decida afinal que o vidro quer dizer ali que existe o imponderável e não há o que fazer em relação a ele - viver apenas, deixar a vida continuar.
Ah sim, o livro. É muito bom, altamente recomendável mesmo pra quem não quer ou não gosta de encontrar respostas pra tudo, só as possibilidades expostas.
Depois de não chegar a qualquer conclusão, claro, a imagem terrível da moça perdendo pés no que pode ser uma infecção progressiva me lembrou automaticamente de Ida MacLaird, a garota com os pés de vidro: um dia ela olha para seus dedos e percebe que estão ficando duros, translúcidos, cristalinos, e o vidro começa a lhe tomar o corpo enquanto ela tenta encontrar respostas para seu problema e para sua vida. As soluções podem estar na ilha de St. Hauda's Land (leia aqui texto bem legal escrito por Ali Shaw, o autor do livro, sobre a criação da ilha), gelada, chuvosa, isolada, cheia de pessoas levando vidas solitárias, tristes e igualmente sem respostas.
Sempre prometi ao Nerdrops e a mim mesma uma resenha do livro, que li com rapidez entre o Natal e a virada de ano de 2010. Nunca pude cumprir a promessa porque não me sentia confortável com o fato de que não consegui pensar no que significaria, afinal, o vidro que toma conta do corpo de Ida (fantástico personagem feminino, aliás). Tenho algumas hipóteses e quando reler o livro talvez me decida por uma ou duas. Ou por nenhuma mesmo. Pode ser que eu decida afinal que o vidro quer dizer ali que existe o imponderável e não há o que fazer em relação a ele - viver apenas, deixar a vida continuar.
Ah sim, o livro. É muito bom, altamente recomendável mesmo pra quem não quer ou não gosta de encontrar respostas pra tudo, só as possibilidades expostas.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Música, memórias, sinestesia?
Spike Jonze que me levou a Maurice Sendak, que se encontrou com Karen O e então cheguei lá. Aqui.
Noites geladas em 2010, a sala vazia e só o som que saía do teclado e dos meus fones. As noites mais silenciosas e mais solitárias.
Há coisas que ouço que me trazem cheiros, gostos e sensações. Os primeiros acordes tocam e quase posso sentir de novo o mesmo frio.
Noites geladas em 2010, a sala vazia e só o som que saía do teclado e dos meus fones. As noites mais silenciosas e mais solitárias.
Há coisas que ouço que me trazem cheiros, gostos e sensações. Os primeiros acordes tocam e quase posso sentir de novo o mesmo frio.
sábado, 19 de maio de 2012
Vocês podem me ajudar com uma pesquisinha rápida?
O babado da semana entre meus colegas de profissão é esse texto do Luís Antônio Giron, em que ele relata uma experiência recente em uma biblioteca pública. O texto foi amplamente replicado e retrucado pelos meus colegas e gerou alguns posts em resposta (como este e este) e, pasme, uma resposta oficial do nosso Conselho Federal.
Eu pergunto a vocês, leitores: como foram suas experiências mais recentes em bibliotecas?
Podem responder na caixinha de comentários ou no meu email (deborahcapella@gmail.com), sim? Obrigada!
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