Somos uma espécie burra, que emporcalha e congestiona o próprio espaço que habita. Somos parte de uma sociedade que produz sozinha uma grande parte dos problemas que a atingem - inundações, especulação imobiliária, violência. Somos incapazes de pensar coletivamente e priorizamos nossas necessidades de consumo, mesmo que irracionais. Fazemos isso para alimentar nosso ego, nossa vaidade, nossa necessidade de autoafirmação.
Precisamos parar de comprar carros. Carros imensos, carros em profusão, um carro para cada membro da família, um carro muito maior do que necessitamos, que nos consome dinheiro, espaço, ar, recursos naturais e nos consome também a paz - um carro é um bem valioso e a ideia da avaria ou perda dele nos angustia. Atire a primeira pedra quem pelo menos não teve a sensação péssima de sonhar que teve o veículo roubado; isso quem já não passou pela experiência real de parar o carro em um lugar e na volta não encontrá-lo mais.
Transporte público é coisa pra gente pobre, desassistida, que mora longe e que ainda não tem condições de adquirir um veículo. O poder público pensa assim. Nós também pensamos assim (sobre o transporte, sobre o SUS, né?). Um dos primeiros sinais de prosperidade é a compra de um carro (pena que não possamos dizer que ela simboliza a maturidade da pessoa - se fosse o caso não haveria a quantidade de acidentes sérios e de vítimas de imprudência pura) - ela sinaliza que aquela pessoa ou aquela família atingiu um determinado poder aquisitivo e pode ser reconhecida como parte de um grupo diferenciado. A prosperidade aumenta, o número e o tamanho dos veículos também. Não importa qual é a quantidade de pessoas que vai ser transportada, não importa qual é a carga a ser colocada no veículo, não interessa que as nossas ruas - mesmo em Bauru, cidade de cerca de 350 mil habitantes, longe de ser uma metrópole - não tenham mais espaço para tantos veículos, parados ou em movimento. Não faz diferença que os terrenos para construções precisem ser cada vez maiores para acomodar os carros dos ocupantes dos imóveis que vão ser construídos. Não importa que seja absurdo o fato de que terrenos vagos sejam ocupados por estacionamentos pagos e não por praças, não interessa que o uso do espaço nas vias públicas seja sujeito a pagamento.
Como indivíduos pertencentes a uma sociedade consumista, individualista, acomodada e imediatista, preferimos deixar de conversa e adquirir nosso veículo logo (afinal "o dinheiro é meu e faço com ele o que quiser", dirão muitos) ao invés de ajudarmos a sociedade a pensar em alternativas mais racionais para o problema do excesso de veículos, para o trânsito, para a falta de espaço e de civilidade nas ruas. Preferimos deixar o problema para as gerações seguintes, para os arquitetos, para a engenharia de tráfego, para a prefeitura, ao invés de sermos mais atuantes e cobrarmos um transporte público que seja de qualidade melhor e preço justo. Entendemos que a luta por alternativas ou pela melhoria do sistema que já está implantado é problema de quem ainda não pôde comprar um carro.
Vencer na vida não é comprar carro. Nem roupa, sapato, celular, televisão, casa. Vencer na vida é vencer a própria ignorância, ignorar o impulso consumista que vai nos soterrar em dívidas e sob montanhas de tralha de que pensamos que precisamos; é atuar, pensar, ajudar a pensar no que estamos fazendo com o lugar que ocupamos e com nossa espécie.
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Esse post já saiu lá no Facebook, nas minhas notas. Não, eu não tenho vergonha de reciclar post.
1 comentários:
Isso foi simplismente incrível! Curte demais o blog, tem como retribuir? Estou postando um trecho desse texto mas tudo creditado. Abraços!
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